CENTENÁRIO

A dúvida de Carlos Castello Branco: Filho morto pela ditadura?!

A história...

25/06/2020 20h54Atualizado há 1 semana
Por: Redação
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Castelinho e a leitura obrigatória
Castelinho e a leitura obrigatória

Carlos Castello Branco. Centenário de nascimento de um brasileiro de verdade. Um homem que colocou sua luta pela verdade acima dos seus interesses pessoais.

Um homem marcado pela dor da perda, da incerteza. Pela dor da dúvida. Num encontro com João Goulart, ex-presidente defenestrado pelos militares, este lhe disse:

"Seu filho foi morto pela ditadura militar."

Castelinho ficou pasmo. Nunca havia pensado nessa possibilidade para a morte de seu filho Rodrigo Lordello, em 2 de maio de 1976, na Capital da República, Brasília.

A revelação consta do maior livro até hoje escrito sobre a história de Castelinho, "Este Imenso Mar de Liberdade", assinado pelo também jornalista e contemporâneo Carlos Marchi.

Jango insiste:

"Eles matam pessoas."

Carlos Castello Branco nunca mais foi o mesmo. Um homem atormentado pelo sofrimento e ao mesmo tempo pela impotência que afetou a tantos durante aquele período de incertezas.

Foi continuamente esmagado pela dor, estrangulado pela indignação.

O próprio Jango Morreria de forma misteriosa, em dezembro de 1976.

Antes, em agosto daquele ano, em um suspeito acidente automobilístico, como comprovou a Comissão da Verdade Rubens Beirodt Paiva, da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, morrera o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek, cassado em 1964 pelo general-presidente Humberto Castello Branco.

"Eles matam pessoas."

A frase ressoa continuamente na mente do célebre jornalista.

Para o maior de todos os seus próprios dramas, ele não tinha resposta.

No encontro com Jango, o ex-presidente avança:

"Olhe, acho que você fez mal [em não mandar investigar o acidente do filho (Rodrigo Lordello Castello Branco) porque você causou muitos danos a esses militares."

De fato, a pena afiada de Castelinho, sem ressentimentos, sem rancores, sem qualquer digressão, mas atendo-se apenas aos fatos, e defensor da liberdade que era, causou muitas atribulações aos governantes da exceção.

Ele mesmo não se reconhecia assim, tão importante.

Disse isso numa entrevista para a TV Timon, ao falar para o jornalista Marcos Teixeira:

"Sou apenas um jornalista."

Copo de uísque. A propósito, nunca mais deixou de beber. Tornou-se, na acepção literal do termo, um alcoólatra. Queria a todo custo fugir da lembrança, do sofrimento, da dor.

Era capaz de entender que a bebida não o levaria a lugar nenhum.

Mas nem assim deixava de beber.

E bebia diariamente, mesmo quando a saúde estava afetada.

Culpava-se, talvez?

Guardava suspeitas do episódio e mantinha dúvidas sobre a investigação causada pela polícia. 

O que se colocava à mesa era que agentes da ditadura civil e militar poderiam estar envolvidos no planejamento e na execução de uma missão de sabotagem para vulnerabilizar o carro do rapaz, de forma a propiciar um acidente programado.

Diz Carlos Marchi:

"A sua pregação democrática constrangia a ditadura e irritava a linha dura."

Sim, era verdade.

Carlos Castello Branco realmente incomodava porque tinha inteligência.

Nunca conseguiu, no entanto, uma carreira de sucesso na literatura.

Tentou em várias ocasiões.

Livros de sua autoria:

- O Arco do Triunfo

- Os Militares no Poder

- A Renúncia de Jânio

Dentre outros...

Leitura obrigatória em todos os jornais por onde passou. Jornalista sem retoques nem ressalvas.

Grande autor.

Conseguiu chegar à Academia Brasileira de Letras.

Mas o fez em função dos seus relatos históricos em livros.

E não da literatura propriamente dita, que era outra de suas grandes paixões.

Foi Secretário de Imprensa de Jânio Quadros.

Oito meses no Planalto.

Não acreditou na informação privilegiada que recebeu naquele dia 25 de agosto de 1961.

No livro de sua autoria, escreveu:

"O presidente não pensara aonde ir, chegando a São Paulo. Dona Eloá lembrou-lhe que a casa deles estava alugada. Deveriam bater à porta de algum amigo. O general comunicou que era ainda o responsável pela segurança pessoal do presidente e não permitiria que ele deixasse a Base Aérea de Cumbica até que a situação se esclarecesse e fossem conhecidas as repercussões. O presidente concordou: sua presença na casa de um amigo poderia criar constrangimentos. Ninguém sabia o que iria se passar.

A despedida foi rápida. O presidente lançou um último olhar

sobre Brasília.

- Cidade amaldiçoada, disse, espero nunca mais vê-la."

Carlos Castell Branco faleceu em data de 1° de junho de 1993, depois de ser homenageado em sua cidade natal com a guarda dos seus livros pessoais na Casa da Cultura Barão de Gurguéia.

Posteriormente, a Ufpi (Universidade Federal do Piauí) o contemplou dando seu nome à biblioteca da instituição.

Castelinho eterno. (Toni Rodrigues)

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