ESTADO NOVO

Nós descemos ao porão da ditadura, em Teresina

Conheça história do lugar...

18/06/2020 09h50Atualizado há 2 semanas
Por: Redação
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Toni Rodrigues desce ao porão do Estado Novo (Foto/Jorge Silva)
Toni Rodrigues desce ao porão do Estado Novo (Foto/Jorge Silva)

Descemos ao porão da ditadura. Em tempos de paz, claro. O lugar foi construído nos anos 40 como parte do antigo quartel da polícia durante o Estado Novo. Era presidente da República o senhor Getúlio Vargas. O estado era governado pelo interventor Leônidas de Castro Melo, médico e que se autointitulava um humanista. Mas nem tanto. Silenciou frente a muitos desmandos praticados pelo capitão Evilásio Gonçalves Vilanova, mais tarde coronel do exército e que fora nomeado comandante da polícia e delegado geral.

O porão está situado no atual Centro Artesanal Mestre Dezinho. Chega-se a ele a partir da oficina de artesanato de Carlos Oliveira. Ao entrar no espaço pela porta da frente, ou seja, diante da praça Pedro II, dobra-se à esquerda e logo em seguida, à direta. A oficina de Carlos é a primeira. Ele recebe a todos muito bem e conta direitinho a história do velho porão.

Ali eram jogados os presos da ditadura do Estado Novo. Jogados, literalmente. O sujeito era lançado do alto de uma escada de quase quatro metros de altura, com as mãos amarradas para trás. Alguns se perdiam logo no começo da prisão, totalmente alquebrados, e não conseguiam sobreviver. Outros eram humilhados e espancados dia e noite até confessarem os crimes que lhes eram atribuídos.

No caso, nem eram os criminosos verdadeiros. Eram acusados e pronto. Já bastava para os membros da ditadura e para a polícia política. Tudo contado com detalhes no livro Cinturão de Fogo, de nossa autoria. Houve casos em que os presos resistiram e escaparam com vida por puro milagre. Caso de Luiz Enfermeiro. O pobre diabo foi preso acusado de incendiar casas de palha.

Queriam que ele dissesse que estava agindo a mando do médico José Cândido Ferraz. Ele resistiu e foi brutalmente espancado durante várias semanas. Segundo relato do também médico Eurípedes de Aguiar, “o homem ficou totalmente moído, com ossos quebrados nas mãos, nos pés, nos braços, nas pernas, em toda parte, ficou inutilizado para o trabalho físico”, relatou o médico aos seus contemporâneos.

Outro que também foi lançado naquele espaço maldito foi o trabalhador Francisco Gomes Feitosa. Brutalizado até a morte. Intestinos rompidos, sangramento interno. Deu-se como casa de seu falecimento uma febre tifóide que teria adquirido antes de ser preso. O médico Agenor Barbosa de Almeida, com quem conversamos, nos contou outra história. Disse que ele tinha sido espancado até a morte e responsabilizou diretamente Vilanova e seus homens.

O prefeito Firmino Filho nos conta que seu avô era adversário de Vilanova. Melhor dizendo, desafeto. E que naquele tempo as adversidades eram levadas ao extremo. Tanto que para satirizar o inimigo político, o avô do atual prefeito colocou em sua jumenta o nome de Evilásia.

Estivemos no porão mais de uma vez. A primeira foi nos idos de 2003 em reportagem para a TV Meio Norte. Na segunda, estivemos fazendo matéria para a Rádio FM Cultura de Teresina. Em ambas, conversamos demoradamente com Carlos Oliveira. Sempre é bom conversar com ele. Valoriza o contexto e nos garante muito conhecimento sobre o lugar.

É um espaço pequeno, de pouco mais de três metros quadrados, repleto de muita poeira, teias de aranha, preservado na medida do possível. Nas paredes, marcas de sangue, ossos fincados. Indica que muitos foram brutalizados ali. O ar é carregado e paira uma atmosfera muito ruim naquele recinto de tantas prisões e mortes. Foi usado também durante a ditadura militar de 1964. Esteve preso ali o professor José Reis Pereira, que foi deputado estadual e posteriormente presidente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, de Teresina. Ele nos conta em detalhes a sua trajetória (Veja abaixo).

Carlos Oliveira afirma que o lugar recebe muitas visita. Gente que vem de outras cidades do Piauí, de outros estados e até de outros países. Documentam, entrevistam, partem. E levam consigo uma parte da história do Piauí e do Brasil. (Toni Rodrigues)

Nas imagens acima, sequência da entrevista de Carlos Oliveira a Toni Rodrigues

 O porão dos presos durante a ditadura do Estado Novo

 O porão do antigo Quartel da Polícia Militar do Piauí é um local totalmente insalubre. Cerca de três metros quadrados, altura aproximada de dois metros e meio. Uma escada que desce em 90 graus, quase uma escalada. O lugar mete medo ainda hoje, mais de 70 anos após a ditadura de Getúlio Vargas, quando a polícia piauiense, em grande parte do tempo, foi controlada com mão de ferro pelo coronel Vilanova.

O artesão Carlos Oliveira não fica muito satisfeito quando as pessoas visitam o seu estabelecimento na Central de Artesanato e pedem para ver o porão. Ele encara o interlocutor meio aborrecido e ergue a tampa. Logo em seguida começa a falar tudo o que sabe sobre o pavoroso ambiente de torturas. Foi ali que os presos de Evilásio foram trancafiados.

Muitos adoeceram por conta do ambiente de clausura e umidade. Outros por conta das pancadas. Eram muitas, o tempo inteiro. Praticamente não havia presos políticos. Os elementos eram detidos em meio ao povo por qualquer razão, desde que o comandante da polícia não fosse com a cara do incauto. Havia também a possibilidade de ser acusado de participação nos incêndios ou então de ser flagrado pronunciando a palavra “fogo”.

Era proibido por decreto falar-se tal palavra nas ruas da capital. Tudo por causa dos sinistros que atingiam as casinhas de palha dos menos favorecidos. Mas o governo queria evitar também a especulação, a maledicência, que a população começasse a falar mal do próprio interventor e do seu chefe de polícia. Era o que mais se fazia nas ruas e praças arborizadas da cidade.

Em todo lugar onde estavam reunidas mais de duas pessoas o assunto era sempre o mesmo. A cidade estava dividida. Uns diziam que era Vilanova o autor dos atentados contra os casebres da periferia. Outros diziam que era a oposição para desestabilizar o “doutor Leônidas” – um homem bom, afinal, no seu todo.

Por causa disso a polícia determinou que estavam proibidos também os encontros em lugares públicos. Onde estivesse três pessoas ou mais, recebiam de imediato a ordem para dispersar. Ninguém era louco de contestar, disse o professor Joaquim Magalhães, puxando pelo fio da memória, em mais uma prolongada sessão de entrevistas com o autor.

Como sempre houve um pacto entre as elites do estado, fossem do governo ou da oposição, o ônus da submissão violenta era sustentado pelos pobres, que além de perderem suas casas eram presos e acusados de participação nos incêndios. Eles negavam, mas a polícia não queria saber de negativa. Queria saber de alguém que pudesse indicar um mandante e, de preferência, que esse mandante fosse o famoso médico José Cândido Ferraz.

Raimundo Wall Ferraz, deputado federal e prefeito de Teresina em várias oportunidades, sustenta em seu livro “45 anos depois, tudo o que vi, li e ouvi” que os atos de tortura do Estado Novo no Piauí avançavam basicamente contra a pobreza. Segundo ele, mais de 200 homens do povo foram presos e brutalmente torturados no campo de aviação da zona norte, onde hoje está o aeroporto Petrônio Portella, no centro de treinamento da polícia, no bairro Ilhota, na saída sul da capital, onde atualmente situa-se o bairro Tabuleta, ou então no tétrico porão do quartel, em que os gritos de sofrimento eram abafados pelas paredes grossas.

De acordo com o advogado e professor universitário Carlos Lobo, “os presos eram amarrados com as mãos às costas e empurrados do alto da escada íngreme, de modo que logo na chegada quebravam um braço, uma perna, fraturavam gravemente alguma costela; e a tortura persistia com muita pancadaria, sem sossego, por dias seguidos, até que os presos resolvessem falar ou não. Muita gente morreu ou ficou aleijada. O problema era que ninguém ousava se pronunciar dizendo quem tinham sido os verdadeiros responsáveis e sabemos que Vilanova estava à frente de muitas torturas, pessoalmente comandando o festim diabólico.”

Nas paredes do velho porão, as marcas da tragédia

 José Reis Pereira esteve preso no velho porão

 José Reis Pereira, professor universitário e ex-deputado estadual, militante estudantil nos anos 1960, conta que vários dos seus colegas estiveram presos no famigerado porão. “Foi no período da ditadura militar, um pouco depois do golpe, quando começaram os protestos e começou também o endurecimento do regime. Era o ano de 1968 e em todo o Brasil surgiram manifestações contra a chamada ‘redentora’.”

Relata que participou de várias pichações por toda a cidade. Muitos estudantes foram presos. “Tive, naquele momento, apenas algumas detenções rápidas. Mas eles logo me soltavam porque eu estava acometido de tuberculose. A prisão poderia agravar meu estado de saúde. Como se vê, no Piauí, não houve um endurecimento muito grande do regime. Ainda se tinha esse tipo de consideração.”

Disse ainda que recebeu várias advertências para que ficasse em casa e evitasse os protestos, mas ao tomar conhecimento de que vários dos seus colegas haviam sido presos ele foi até a Faculdade de Filosofia, situada entre as ruas Barroso e Olavo Bilac, num prédio que até hoje pertence à Universidade Federal do Piauí, onde estudava letras, e convocou os estudantes a um novo ato público no dia seguinte. Os militares tomaram conhecimento e mandaram prendê-lo dizendo que ele não podia ficar solto porque era “muito agitador”.

“Mesmo assim não me mandaram para o porão porque era um lugar muito úmido. Inaugurei o 1º distrito policial, no centro da cidade, que havia sido recentemente construído, onde fiquei preso por oito dias. Houve a intervenção do meu médico, que era o doutor Lucídio Portella, ele convenceu as autoridades militares de que eu estava correndo risco de vida se ficasse preso. Os responsáveis pela minha prisão seriam acusados por qualquer coisa que me acontecesse. Então eles me mandaram para casa, onde fiquei em prisão domiciliar por 30 dias”, falou José Reis Pereira.

Ele contou ainda que seus colegas estudantes Antonio José Medeiros e Ubiraci Carvalho ficaram presos por um mês inteiro no porão do antigo quartel da Polícia Militar do Piauí. A ditadura os havia cadastrado como pertencentes ao movimento comunista internacional infiltrados entre os estudantes para tentar desestabilizar o governo. “Mas esse foi um outro momento, bem menos agressivo do que nos anos 1940, quando o Piauí era governado por Leônidas Melo, um médico, humanista, mas a política nacional era controlada pelo Estado Novo, então não havia como ficar contra sem pagar um preço ainda mais alto.”

“O Piauí, naquele tempo, não tinha nenhuma condição de se insurgir contra o poderio de Getúlio”, prossegue. “O jeito foi aguentar o desgaste provocado pelo próprio tempo. O governo caiu porque não tinha mais nenhuma condição de permanência diante do que estava se processando no mundo inteiro. A vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial foi determinante. Os brasileiros foram ao exterior lutar pela liberdade. Não se justificava que em seu próprio país ficassem vivendo uma ditadura sanguinária.” (Trecho do livro CINTURÃO DE FOGO, de Toni Rodrigues, Nova Aliança, 2013)

Confira vídeo abaixo:

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