ENTREVISTA

Arimatéia Azevedo conta tudo; o jornalista está preso por decisão monocrática de um juiz

Arimatéia Azevedo foi preso na sexta-feira, 12/06, depois da acusação do médico Alexandre Andrade Souza de que teria sido extorquido

14/06/2020 10h25Atualizado há 3 semanas
Por: Redação
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Arimatéia Azevedo fala a Toni Rodrigues
Arimatéia Azevedo fala a Toni Rodrigues

Numa entrevista a Toni Rodrigues, o jornalista Arimateía Azevedo faz um longo apanhado sobre sua atuação profissional, de mais de 40 anos. E conta tudo. Ele fala sobre o acumpliciamento de instituições ao crime organizado e sobre as vezes em que esteve marcado para morrer.

Azevedo conta sobre a denúncia que fez em 1987 acerca de um esquadrão da morte existente na Polícia Militar do Piauí e sob o comando do oficial José Viriato Correia Lima, ora condenado e preso.

Conta ainda sobre as vezes em que esteve ameaçado de morte por denunciar elementos corruptos da política piauiense e brasileira.

Arimatéia Azevedo foi preso por determinação do juiz Valdemir Ferreira dos Santos, Juiz de Direito da Central de Inquéritos, sob acusação de chantagem contra o médico Alexandre Andrade Souza.

O ACUSADOR

O médico alega que estava sendo vítima de chantagem por conta de um problema ocorrido durante um procedimento cirúrgico realizado pela vítima, expondo-a de forma negativa.

Alexandre Souza foi acusado judicialmente de esquecer uma gaze no seio de uma paciente durante um procedimento cirúrgico. Ele foi processado e chegou a um acordo extrajudicial com a vítima. Por isso o processo foi extinto.

O nome de Arimatéia e do professor Barreto foram expostos pelo Greco, da Polícia Civil. Mas a polícia em sua nota nada disse sobre a identidade do acusador.

O delegado Tales Gomes chegou a dar entrevista convocando a população a apresentar queixa contra o jornalista, aquele que se sentir ofendido ou que tenha sido (supostamente) vítima de chantagem, por parte do jornalista, deveria se apresentar ao Greco levando os fundamentos.

Nunca se viu nada assim, nem mesmo em casos realmente que atentam contra a coletividade, que, aliás, esta seria a finalidade do Greco, combater o crime organizado.

GRECO DEVE EXPLICAÇÕES

Nunca se viu nenhum delegado dizendo, traga provas contra quem colocou fogo na secretaria de Saúde do estado, ou na secretaria de Educação, ou contra quem desviou recursos do transporte escolar, da merenda escolar; ou contra quem desviou recursos de obras públicos, sobre acerca de casos de grilagem que tiveram ampla repercussão na mídia, nada disso.

O Greco está devendo respostas sobre muitas coisas, como por exemplo um malfadado inquérito sobre chantagem em que vários pretensos jornalistas aparecem fazendo pressão contra o então coordenador de Comunicação, João Rodrigues.

Envolve apresentadores de televisão, elementos da mídia marginal da internet, alguns falando em tom de ameaça e querendo dinheiro da CCOM, pelo menos assim aparecem no material que foi divulgado, os famosos apagadores de incêndio da obscuridade piauiense entraram em cena e fica tudo como está, prevalece a impunidade.

DECISÃO DO MAGISTRADO

Segundo a decisão do magistrado, a partir da publicação dessa matéria, José de Arimatéia de Azevedo e o professor universitário Francisco de Assis Barreto teriam passado a extorquir a vítima para obter vantagem financeira, tendo sido a mencionada vítima obrigada a entregar uma quantia de R$20.000,00, para que cessassem com as publicações.

O magistrado dispensou vistas ao Ministério Público. Um promotor aposentado disse ao tonirodrigues.com.br que “a prisão preventiva foi decretada sem ouvir (parecer) do promotor de justiça (há um que atua nos inquéritos/flagrantes/preventiva, exatamente para isso.”

Ressaltou ainda que “se no pedido de prisão em flagrante o juiz deve ouvir o MP, antes de decidir, com maior razão na preventiva porque futuramente quando este inquérito lhe for enviado, o promotor pode entender que não há substrato jurídico para ofertar denúncia. E aí, o profissional de imprensa já foi preso, já teve sua honra e reputação manchada, como ficará?”

TERATOLOGIA E ATABALHOAMENTO

Um promotor da ativa também se pronunciou na mídia sobre o caso. Ao portal Lupa1, o promotor Rômulo Cordão disse considerar “teratológica” a decisão do magistrado e também chamou de “operação do Greco atabalhoada.”

Ele disse que a investigação foi instaurada no mês de fevereiro. “Ora, estamos em junho, não justifica durante todo esse tempo a investigação correr sem o acompanhamento do MP, diga-se de passagem, titular exclusivo da única ferramenta processual que poderá punir os réus, qual seja, a ação penal.”

“A decisão chega ao auge da teratologia ao censurar qualquer publicação do Portal AZ, como dito pelo magistrado”, observa o promotor Rômulo Cordão, “que seriam 'ofensivas a imagem do digno e responsável Greco', parece piada, mas a censura prévia também ficou estabelecida na mesma decisão.”

ENTREVISTA DE ARIMATÉIA AZEVEDO

A entrevista foi concedida em 6 de julho de 2018 e veiculada no programa Jornal da Cultura I Edição, da FM Cultura de Teresina (107,9 MHz).

O jornalista fala que a Polícia Militar piauiense foi constituída, na origem, por indivíduos que eram reservistas do Exército brasileiro e por isso não tinham uma preparação para o exercício da função policial.

Enfatiza que Correia Lima começou a se envolver em crimes desde que era tenente, cometendo crimes os variados, desde furtos a assassinatos.

Conta ainda sobre o surgimento das grandes organizações criminosas, através do envolvimento dos presos políticos que faziam oposição à ditadura militar com os presos comuns nas cadeias.

O jornalista afirma que escapou de morrer em várias situações e teve que buscar proteção fora do estado porque no Piauí as próprias instituições se acumpliciavam ao crime organizado.

MANIFESTAÇÃO DE JORNALISTAS

O presidente do Sindicato dos Jornalistas do Piauí, Luiz Carlos Oliveira, lamentou a prisão do jornalista Arimatéia Azevedo e defendeu a liberdade de expressão.

Ele disse que numa democracia, mesmo as de menor qualidade e aquelas postas à prova e a risco, a prisão sempre deve ser exceção, nunca a regra.

“Esperamos que a decisão judicial monocrática em primeira instância possa ser reformada em instância superior, de modo a reparar o que este Sindicato considera uma injustiça contra o jornalista Arimatéia Azevedo.”

A jornalista Rosalina Ferreira disse nas redes sociais: “Calam a maior voz do Jornalismo piauiense , mas não podem nos calar. Somos a sua voz, Arimateia Azevedo. Aguente firme. Já já, tudo será esclarecido.” (Toni Rodrigues)

LEIA MATÉRIA DE LUPA1 COM PROMOTOR RÔMULO CORDÃO

 

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