DESVIOS

João Mádison: Macunaíma do Piauí e a impunidade chancelada para os ladrões do erário

Projeto de João Mádison prevê descontos de até 80% em multas contra gestores que desviaram recursos públicos

14/06/2020 09h16Atualizado há 3 semanas
Por: Redação
174
João Mádison, o autor do projeto, devidamente aprovado pela Alepi
João Mádison, o autor do projeto, devidamente aprovado pela Alepi

Macunaíma é um personagem da literatura brasileira criado em 1928 pelo escritor Mário de Andrade. O livro de sua autoria intitula-se “Macunaíma – O Herói Sem Nenhum Caráter”. O sujeito, segundo a obra, encarna a personalidade mestiça e malandra do povo brasileiro.

Posteriormente, sua tese foi embalada na sociologia e na ciência política por Gilberto Freire em “Casa Grande & Senzala” (1933) e Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil” (1936). No Piauí, agora temos também o nosso Macunaíma. Para uns, ele pode ser um herói. Para a maioria, certamente, seu desempenho e conduta precisam ser melhor avaliados.

Trata-se do deputado estadual João Mádison Nogueira, do MDB. Aliás, seu partido já diz muito sobre ele. Falante, bonachão, sempre ao lado do governo desde que entrou para a política, nos anos 90, na era Mão Santa.

É autor agora de um projeto que foi chamado pelo site Política Dinâmica de “refis da impunidade”. Devidamente aprovado pela Assembleia Legislativa do Piauí com voto contrário apenas de Teresa Britto (PV). Explica-se. O projeto prevê descontos de até 80% em multas aplicadas pelo TCE/PI (Tribunal de Contas do Estado) contra gestores corruptos. Ou seja, contra os ladrões do dinheiro público.

Macunaíma justifica seu projeto: os ex-prefeitos saíram do poder e já não têm dinheiro algum. Não pense que há exagero. É assim mesmo que se pronuncia o senhor Mádison em defesa dos beneficiários. Estamos falando de gente que roubou dinheiro de gestantes, de criancinhas famélicas, de idosos empobrecidos pelos anos da usura da classe política; estamos falando de gente trabalhadora, que gostaria apenas de uma oportunidade para evoluir, mas que teve as suas chances ceifadas pelos maus gestores.

Segundo Macunaíma, ops, Mádison, todos ganham com o tributo à impunidade. Ganha o TCE porque consegue recolher as multas, consequentemente ganha a sociedade por ver a lei aplicada; ganham também os corruptos, porque em estado de quebradeira podem perfeitamente honrar com os compromissos, limpar o nome, e, claro, continuar na vida pública, atribuindo votos aos Macunaímas como João Mádison.

O projeto não fala sobre o que gerou tais condenações. Prestações de contas em desacordo com a realidade. Dinheiro que aparece na contabilidade, mas que os auditores verificam ter sido desviado. Deveria construir e equipar escolas, melhorar postos de saúde e hospitais do interior, garantir melhores condições para a coletividade.

No entanto, foram parar nos bolsos dos “gestores quebrados” e serviram para comprar carrões de luxo, apartamentos de alta cotação, financiar viagens internacionais, férias inesquecíveis em paraísos turísticos, estudos no interior, colégios caríssimos em outros estados. Dizem-se “quebrados” porque, segundo um antigo adágio popular, dinheiro roubado é amaldiçoado.

Mas a verdade é que o projeto do Macunaíma tupiniquim não trata absolutamente sobre a devolução desse dinheiro. Trata somente sobre desviar ainda mais dinheiro, agora com chancela oficialesca, do combalido povo piauiense. (Toni Rodrigues)

1comentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias